Releitura

25 dez

Muito tempo se passou.

A vida mudou muito desde aquele natal, daqueles natais… Quando tia Betsy trazia um felpudo pullover de lã, que coçava pra cassete e você tinha que aceitar. Principalmente pelo fato de você nunca ter tido uma tia Betsy, entende?

E hoje quando você ganha um presente ou outro, você preferia não tê-los ganho. Se sente até um pouco – e por mais estranho que isso seja, mas verdade ainda assim – culpado de ganha-los. Você nunca é ‘educado’ com seus parentes, vive reclamando deles e xinga até não poder mais, quando alguém faz um gesto simples, como por exemplo te pergunta sobre o trabalho ou a vida em geral.

Uma bosta. Chato, incrivelmente chato. Tanto você quanto as pessoas. Descobre que na verdade, só você, afinal, o relacionamento que você mantém com as pessoas é 70% da sua parte e o resto da deles. Ninguém tem a obrigação de gostar de você, principalmente quando se é parente. Mas é parente, e por causa disso você deveria ser educado. At the very best.

Não é? Não vale a pena manter a máscara só pra poder curtir um pouco? Não… você se corrói se manter essa coisa toda. Primeiro porque é contra seus princípios ser falso, seja com você porque não gosta deles e sabe que devia fazer isso ou os outros com você; segundo porque chega uma hora que sufoca, como manter a respiração embaixo d’água; terceiro porque…

- Hey Joe, aren’t you coming?! It’s Turkey time!!

- Ah shit… Ok, I’m getting there, just let me finish typing this!

Porque, simplesmente.

12:13

15 nov

- Querida, vamo logo!! Depois reclama que a gente chega atrasado!!

- Já vou, já vou… Falta só o brinco.

Uma moça morena desce as escadas da casa. Seus saltos anunciam, e o vestido entorpece. Mas não a ele. Afinal, é sua mulher há 3 anos.

- Desculpa ter berrado, mas você sabe como eu sou com horários.

- Você tem razão querido, não precisa se desculpar.

O casal trancou saiu da casa. Era uma casa simples, mas muito simpática por fora, numa rua sem movimento daquela enorme cidade. Enquanto uma brisa varria as folhas da rua anunciando o inverno, ele lembrou do verão. Do verão de 11 anos atrás, no mesmo dia. Estressado com algumas provas, mal dormido, de costume e gravata. Já faz tanto tempo, mas parece que é hoje. De novo.

- Você pegou as chaves?

- Peguei. Estão na bolsa. Vamos? – e ela deu o braço.

- Vamos.

Sua vida estava completa. Daqui a alguns meses eles iriam voltar para onde canta o sabiá, abrir o negócio deles e viver uma boa vida dali em diante. Mas hoje seus pais estavam na cidade. Já haviam ido a todos museus, alguns bares indicados pelo filho e outros restaurantes. Agora os quatro iriam almoçar.

- Oi! Tudo bem?

- Filho, filho! Tudo bem sim, tudo bem.

- Tudo, tudo. E vocês dois? Ela é…?

- É sim. Essa é a Angela. Meus pais…

- Ela é linda!

- Ah brigada…

- É, nossa. E como vocês se conheceram?

- Ah, a gente… Bom, ele estava trabalhando e eu só entrei para perguntar se minha amiga tinha reservado mesa. Ele olhou num papel e disse que não. Eu sentei ao balcão e ele me deu um drink e a gente ficou conversando… E foi isso.

- Ah, que bonito…

E a tarde entrava e saía lá fora.  A noite entrou, a conversa continuava sem previsão de parar. Naquele bar, naquela cidade…

 

18:35

8 nov

O Sol se preparava para ir. Naquela vieja ciudad, onde as ruas ainda eram de pedra, a tarde alaranjava. Na colina a frente, um Sol tardava a se retirar, parecia que estava bom do jeito que está. Como se fosse uma multidão de pessoas com pressa, nuvens lutavam por um lugar naquele céu. E começa a chover.

Mas, diga-se, que com aquele calor fez bem. Uma nesga de luz laranja não deixava tudo aquilo escurecer e as coisas ficaram só úmidas. Caprichadamente úmidas. Um aroma de grama e chuva emanava da rua, e algumas pessoas que passavam, andavam ali, não podiam se importar menos. Era normal se sentir assim.

Um senhor se sentou ao quiosque. Ele olhou no relógio. Apenas olhou em seguida ao barman e serviu o drink. Com a camisa de linho desabotoada por completo, os fios de cabelo branco respiraram quando removeu o chapéu e colocou-o ao lado do copo. Um lindo fim de dia – pensou. Nos passos a frente, o mar rebentava na areia. Suas lembranças também.

Des Petites Choses

24 out

Ele chegou do trabalho cansado. Suas olheiras estavam quase pretas de tantos suspiros noturnos. Ao entrar jogou o casaco no sofá e se sentou no banco ao lado do aparador. O copinho de licor foi enchido e naquilo ele folegou. Seu casaco estava suado, sua garganta coçava e o relógio batia no pulso o horário, segundo a segundo. O tempo escorria por suas mãos, era o que sentia.

O casaco era presente da mulher, mimo de natal. O passado. Naquele ano eles haviam ido para os Alpes, sua primeira vez na Europa e também fora do país. Não basta nunca dizer que o edredon era desnecessário. Que o pijama ficou limpo na mala a viagem toda. E basta dizer que ao voltarem, ele voltou e ela não. Um dia, pouco antes da volta, viu uma flor e por ela, talvez, lá ficou.

O colar, corrente de ouro, era da filha, o presente. Um santo com uma história inventada e de milagre duvidoso. Depois da viagem, nunca mais se falaram. Ela achava que foi ele e ele achou o mesmo. Talvez evitasse a filha o tanto quanto se evitava. No dia a dia, no banheiro de manhã, no almoço a tarde, quando bebia a noite toda, pensando como teria sido diferente.

O relógio fora um souvenir. Lá estavam praticamente dando um a qualquer que se mostrasse de valor. E ele mostrou que durante todo esse tempo nunca pensou em nada além dele, do próprio. E é, tanto como foi, tanto como será, o que vai lhe mostrar que não deve ser apenas contemplado, mas de uso. De abuso, como nas tardes de verão e como de precioso, quando em noites de inverno gélido.

Terminou sua dose e foi se deitar, como se fosse outro dia.

About You

13 out

Noite. Uma sirene ao longe se ouvia, carros fazendo barulho nas poças, e a luz fosca amarela do poste iluminava a névoa baixa. Nelson subiu a gola do casaco e correu, atravessando em direção ao bar. No ombro direito um estojo de sax, e na mão esquerda, a cigarreira. Ao chegar no toldo verde-escuro, esperou dois cigarros e entrou.

Ele entrou, deixou o casaco e o chapéu na chapelaria e foi sentar-se. Uma banda tocava, logo a frente, uma moça cantava. Negra como o azul não consegue ser e cantava como se sempre esteve rouca de tanto chorar.

O homem levantou e foi até o balcão. Sua mão acenou, pediu um puro e voltou para sua mesa.

A apresentação acabou e ela foi se sentar.

- Posso?

- Estava esperando você.

- Vai tocar logo?

- Daqui a pouco. Gostei do que você fez.

- É, antes do refrão eu achei que ia ficar bom aquele solo.

- Eu disse do cabelo.

- Ah. Haha, você é um cara engraçado Nelson…

- É o que me dizem. Um pra mim e outro pra ela!

- E você? Como vai a mulher?

- Vai bem. Deixei ela em casa, não quis que ela viesse também. Eu queria só te ver.

- Hm. E o Tim?

- Nunca mais ouvi falar. Este não volta mais, pode ficar tranquila.

Ele sabia que aquele bar não tinha motivo de permanecer na lembrança de outros dias. Ou aquele homem. Mas os dois tinham, e muito. Até porque, as lembranças vivem ao nosso lado, esperando por uma segunda chance.

Uma Verdade

19 set

Às vezes, a vida nos surpreende. Bom, nem tanto a vida, mas os outros seres humanos. E nos surpreendem cada vez mais do jeito simples ou complicado – criativo e espontâneo, na grande maioria dos casos. Mas para algumas coisas são surpresas sutis e delicadas, que na verdade são o desdobramento de uma vontade, um desejo, um fato, uma verdade. Basta esse sopro para que o castelo caia.

- Oi?

- Alô, amor?

- Ah, vou chama-lo, Ro.

- Ah, haha, desculpa, eu achei que já fosse…

- Oi.

- Oi amorzinho, tudo bem?

- Tudo, tudo e com você querida?

- Também… E aí, o que você fez hoje?

- Ah, nada demais, fiquei em casa… pensando em você.

- Hm. Querida, eu preciso conversar com você.

De 80 a 90% das vezes, isso não acontece frente a frente. É muito mais fácil lidar com algo que não se consegue lidar, pelo meio mais impessoal possível – algum que você não consiga realmente falar com a pessoa em questão.

- Sobre o que?

Aliás, quando se fala sério, no meio de uma conversa tão cotidiana, sabe-se no inconsciente que nada de bom sugirá deste tom. Entre uma e outra frase, a do ouvinte e a do locutor, há um silêncio ínfimo, mas da certeza.

- Nós.

E aqui o silêncio cósmico. Universal. Que comprova o fato de que sentimentos são ocorrências agnósticas, ou seja, racionalmente improváveis; para a mente humana racional e metódica, uma questão de simples, insolúvel.

- Como assim nós? – disse temerosa.

- Eu não consigo mais acreditar na gente. Sei lá, acho que tudo teve seu tempo e o nosso também já foi… Foi ótimo enquanto durou e gora não posso mais continuar com você. Acho que tenho que explorar o mundo lá fora e conhecer mais gente.

Eis a parte ‘cômica’. As respostas são sempre variadas, algumas inventadas e outras poderiam ter sido evitadas, mas obviamente, não. Cada pessoa tempera essa resposta com seu caráter e alguns reflexos de coisas que ficam a deriva na nossa profundeza.

- … – ela não consegue falar. Seu pulmão não se move e não há pulsação.

- Eu… eu vou desligar ok? Não acho que você deve me ligar por algum tempo, até que… sei lá, até que estejamos bem. Beijos.

São os últimos que ele manda. Não se sabe se o casal tornará a se rever, mas sim – porque é natural – nada mais será o mesmo entre essas duas pessoas. Enfim, cada um que tire suas conclusões, mas é uma história: tem começo, meio e fim.

Ou seja, querendo ou não, a mazela acaba. Sempre.

Lunch Break

15 set

Fui almoçar.

Volto em algum tempo.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.