“Novo”

5 set

Ele olhou para o relógio impacientemente. Seu olhar fixo no ponteiro dos minutos, movendo um nada a cada segundo vermelho que passa. De gravata afrouxada, ele espera. O paletó pesa, e no fone de ouvido o pop-rock apenas aguça a impaciência. O trem chega.

No vão da rabeira, o vento brinca com sua calça. Logo que imóvel, ele entra. Sua mão direita no ferro acima, seu olhar morto no horizonte e sua pasta pesando na esquerda. Uma moça passa ao seu lado e senta na sua frente. Detalhes, só detalhes – ele pensa consigo. Já eram 4 da tarde e fazia um calor de reclamar, enxugar a testa e morder a caneta.

Na hora e mais meia, chega na estação destino. Ele aperta novamente a gravata, sai do trem assim que para e não olha para trás. Um passo de cada vez, até a escada. Degrau por degrau, o moço sente escorrer por suas costas uma gota de suor. Daquelas gotas incomodas, daquelas gotas que são estranhas o suficiente para se notar e pensar do porque-diabos se soa pelas costas. Daquelas gotas que escorrem até lá. Embaixo.

A barba coça. Nesse calor essa barba coça e muito. Por mais que ele tenha feito ontem à noite no pós-banho. Ah, claro, na hora foi uma ótima sensação; depois, logo em seguida, ao dormir, esperou que o dia seguinte fosse melhor, tão bom quanto a sensação da barba recém feita. Tão bom quanto a sensação de dormir sob lençóis de algodão puro. Bom, lá estava ele, mergulhando novamente no ontem e esquecendo do presente. Inclusive da rua que deveria ter entrado. Merda…

Early Night

22 ago

Uma fazenda. Aquela, em específico, tinha no meio do terreno, uma casa simples. Branca, de dois andares, três quartos, 2 banheiros, uma sala, uma cozinha e uma varanda. Uma bela varanda.

Lá fora, dias de sol que não pareciam existir e noites de lua que acalentavam a terra seca e a grama violeta. Capim e muito mato, por onde o olhar deitasse e ali, mais longe um pouco, havia a plantação. Bem alta e presente.

Dentro de um dos quartos, após um dia de diversão e liberdade sob o laranja do meio dia, um menino se trocava. De banho tomado, cansado e contente, vestiu a camisa de seu pijama braço por braço; logo vestiu sua calça, sonolento já.

Na maior delicadeza sua mãe entra no quarto. Com o copo de leite quente repousando sob o criado mudo, ela se senta ao lado do filho. Por alguns minutos fica apenas alizando o cabelo vermelho de seu filhinho robusto. Ele irrompe o silêncio:

- Estou com medo – disse o garoto.

- Do que, filho?

- Do escuro.

- Mas você nunca teve… O que aconteceu?

- Não sei, não quero dormir mãe. Não quero… não posso fechar os olhos.

- Por quê, meu filho?

- Você vai sumir…

- Não vou sumir, estarei no quarto aqui do lado… Eu e seu pai.

- Você não entende… Quando fecho os olhos tudo desaparece. Você não vai sumir, vai?

- Não filho, não vou…

Telefonema

15 ago

- Alô?

- Oi, por favor a Julieta.

- Claro, un momento.

- Ok.

- Alô…?

- Oi. Sou eu. Faz tempo, eu sei, não sabia se você tinha… sei lá, se esquecido de mim.

- Não, não… não esqueci.

- Bom, ouça só. Quando você quiser, sabe onde me encontrar…

Ela apenas ouviu. Ele nada disse. Logo depois, desligou.

Ócio

8 ago

- Ei.

- O que?

- Me passa a garrafa.

- Tá meio longe…

- Tá do seu lado.

- Ah… sei lá. Você precisa mesmo?

- É, to com sede. Mas também…

- O que?

- Ah, deixa.

- Tá bom.

- Você viu aquela ali correndo?

- Vi, vi. Ô beleza.

- É, pois é.

- Diz, você pediu pra diminuir?

- Não, por que?

- Ah, não sei. Tinham dito pra fazer isso, por causa do gelo.

- Frio hein?

- É.

- Faz quanto tempo que a gente tá aqui?

- Não sei.

- Cade seu relógio?

- Do lado da garrafa.

- Hm. Bom, eu acho que vou voltar. Alguém precisa ficar no leme.

- Tá bom, depois a gente se fala. Acho que vou ficar um pouco mais aqui fora.

Iracema

1 ago

A terras d’além mar

Norteado por estrelas

Enfrentando tormentas

Dias sem vento

Aporto n’algum

Longínquo lugar…

Ao chegar desejei que

Outrora não fosse assim

Mas acabo por me ver

Perdido no teu olhar.

Francis

10 jul

- E aí, tá bom assim?

- Só o cabelo, dá uma arrumada.

- Ok. E agora?

- Tá bom. Em 5… 4… 3… 2… e…

Uma jornalista cumpre sua pauta. No interior de tudo, perto do nada e depois do nunca, ela começa a gravação de camisa branca e calça cinza em frente a uma casa simples. O câmera começa a suar em bicas, ela idem. Mal saíram da van e querem voltar para a capital. Mas há uma história para se cobrir.

- Aqui, em Bodocó, há um senhor que – pelo que dizem na região – é o homem mais velho do Brasil. Ele está com 120 anos e dizem que mantém uma aparência de 60 anos. Vamos entrar e conversar com ele.

- E corta! Tá legal assim, você quer gravar chamando ele ou…?

- Pode ser.

- Então tá rodando.

- Seu Francis! [palmas] Seu Francis!!

Eles ouvem um longíquo e calmo dizer, mas não conseguem distinguir. O sol queima suas nucas e chicoteia as costas daqueles que labutam sob o céu anil. Um senhor de mais idade aparece ao lado da casa simples. Os dois passam pelo portão frágil de madeira seca e começam a conversar com o idoso.

- Pois não?

- Olá, nós somos da tevê e a gente gostaria de conversar um pouco com o senhor.

- Hm, sobre o que?

- Bom, sobre o senhor na verdade.

- Olha moça, eu não gosto desses ‘galanteio’… eu sou muito bem casado.

- Hahaha, não meu senhor é só sobre o que você faz e se é verdade o que dizem.

- O que dizem?

- Ué… que você é o homem mais velho da região…

- Ah, isso. É, pode até ser.

- O senhor tem algum registro? Rg, cpf?

- He, não tenho não moça.

- E o senhor já saiu daqui?

- Também não.

- Por quê?

- Porque não. Precisa?

- Não sei… se o senhor é contente aqui…

- E sou. Sempre fui. Agora, se você não se importa, eu estou ocupado.

- O que o senhor está fazendo? Cortando madeira? Colhendo?

- Não, nada.

O senhor então se retira, sem mais. Ele e ela ficaram sem falar. “É louco”, pensou o câmera. Ao se retirar, fecharam o portão, entraram na van abafada. Ela olhava pela janela e nada disseram, até que ele interrompeu.

- Esse velho é caduco. Magina. Hehehe

- É pode ser. Mas ele tem razão.

Registros Gerais

30 jun

Neste domingo, mais um blog meu estará no ar. Vocês, meus fiéis – em média – 8 leitores (se é que é realmente isso, e não alguém que fica clicando sete vezes no refresh), são os primeiros convidados.

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RG, vai ser um blog de opinião. Ou seja, um blog na sua essência. É uma jornada, sim.

www.registrosgerais.wordpress.com

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